Laboratório Neurobioquímica – Universidade Federal de Minas Gerais

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Tetrodotoxina: a história venenosa dos baiacus

Certamente, você já deve ter visto aqueles peixes espinhosos que inflam em diversos filmes e animações. Eles são popularmente conhecidos como baiacus e pertencem às famílias Tetraodontidae e Diodontidae. Esses peixes têm uma habilidade única: quando ingerem água, inflam, aumentando seu volume e escapando dos predadores que tentam devorá-los.

Apesar de seu aspecto simpático, os baiacus têm a fama de serem os peixes mais venenosos do mundo. Isso se deve à alta concentração de uma toxina potente chamada tetrodotoxina (TTX). Contrariamente ao que se pensava anteriormente, esses peixes não produzem a toxina por si mesmos; em vez disso, estudos sugerem que eles a adquirem por meio de sua dieta, possivelmente a partir de bactérias marinhas.

A tetrodotoxina é uma toxina assustadora, sendo 1200 vezes mais potente que o cianeto em seres humanos. Sua ingestão pode desencadear uma série de problemas de saúde, incluindo dormência na face e nos membros, dores de cabeça, vômitos, fraqueza muscular e disfunção motora, podendo até levar à morte devido à insuficiência respiratória e cardíaca.

Essa toxina ataca o sistema nervoso humano, bloqueando os canais de sódio dependentes de voltagem localizados nas membranas das células nervosas. Isso impede que íons de sódio cruzem esses canais, impossibilitando a geração e a propagação dos impulsos nervosos. A ação da tetrodotoxina afeta os nervos periféricos motores, sensoriais e autônomos.

O problema é que não existe um antídoto conhecido para a intoxicação por tetrodotoxina. No entanto, em estágios iniciais, o uso de carvão ativado e lavagem gástrica pode ser útil.

Curiosamente, apesar de sua toxicidade, a carne de baiacus é considerada uma iguaria culinária em lugares como o Japão e até mesmo no Brasil. No entanto, o preparo desses peixes deve ser realizado apenas por cozinheiros licenciados e treinados. Em muitos locais, a venda de pratos de baiacus é até proibida devido ao alto risco que a tetrodotoxina representa.

Então, você se arriscaria a provar um prato especial desse peixinho simpático? A história da tetrodotoxina e dos baiacus nos lembra da necessidade crucial de compreender as intricadas reações bioquímicas que ocorrem em nosso corpo quando consumimos alimentos exóticos, sublinhando a importância de respeitar as normas de segurança alimentar para garantir nossa saúde e bem-estar.

 

 

Referências:

Hanifin CT. The chemical and evolutionary ecology of tetrodotoxin (TTX) toxicity in terrestrial vertebrates. Mar Drugs. 2010 Mar 10;8(3):577-93. doi: 10.3390/md8030577. PMID: 20411116; PMCID: PMC2857372.

Dietrich R, Jessberger N, Ehling-Schulz M, Märtlbauer E, Granum PE. The Food Poisoning Toxins of Bacillus cereus. Toxins (Basel). 2021 Jan 28;13(2):98. doi: 10.3390/toxins13020098. PMID: 33525722; PMCID: PMC7911051.

Noguchi T, Onuki K, Arakawa O. Tetrodotoxin poisoning due to pufferfish and gastropods, and their intoxication mechanism. ISRN Toxicol. 2011 Nov 30;2011:276939. doi: 10.5402/2011/276939. PMID: 23724281; PMCID: PMC3658506.

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